Sant'Anna

 

 

JOSÉ PEDRO DE SANT’ANNA GOMES - JUCA
1 agosto de 1834 + 4 de Abril de 1908

SANT'ANNA, IRMÃO DE CARLOS GOMES

 

Irmão e amigo dedicadíssimo do genial maestro. Também era músico e compositor, mas de uma grande modéstia e todos os seus esforços foram em favor do irmão. Compôs com técnica segura, forma correta e profunda inspiração, vários quartetos e quintetos, além de uma “Ave-Maria Stella”, que compôs para a cerimônia inaugural da Matriz Nova, um quinteto “Saudade”, dedicado ao irmão que se encontrava na Itália, um quarteto para cordas, dedicado a D. Pedro II, homenagem que tributou ao Imperador, pelo amparo que este dispensara ao irmão querido, mantendo-o na Europa, durante anos seguidos.

Entre seus muitos irmãos, aos quais sempre amou intensamente, ACG tinha marcada predileção por Juca, seu único irmão germano. Juca foi ao longo de toda a sua existência, seu melhor amigo, o companheiro de suas primeiras lutas artísticas no Brasil, o amparo e o consolador desvelado de suas primeiras mágoas, o homem que, como pai extremoso, representou sempre para ele, o tronco familiar, o esteio moral e material a que sempre recorrera e  que nunca lhe faltou.

Deolinda, mulher de Juca, era pianista.
Sant’Anna Gomes, além de compositor de grande valor, violinista emérito que chegou a ser um “virtuose”, professor de música e regente da Orquestra do Teatro de Campinas, também conhecia a fundo o ofício de ebanista.
A música de Sant’anna Gomes não oferece trechos de arroubos, páginas brilhantes; é de inspiração delicada, com rara nobreza de fatura.
Não foram os operistas italianos e alemães os seus modelos, mas os mestres da música de câmara, principalmente Mozart, que ele abeberou, como uma espécie de unção religiosa.” (Dr. Pelágio Lobo em artigo publicado no “Correio Paulistano”).

Juca tocava vários instrumentos, mas também era exímio violinista.
Teve a viola como seu preferido. Era brilhante sua atuação nos meios musicais de Campinas em sua época e foi de uma abnegação extraordinária pelo destino de Carlos Gomes, seu irmão de sangue e de arte, mas tão diferente dele no temperamento.

Quando Carlos Gomes triunfava na Itália com a primeira representação de “O Guarani” no Scala de Milão, Sant’anna Gomes lá se encontrava.
Em 1865 a Banda do Maneco ainda participava ativamente do carnaval campineiro, que era um dos mais animados. Nesta época já haviam proliferado as bandas de música. Em 1864, se incorporaram à folia cinco delas: a banda do Sant’anna Gomes, a do Joaquim Romão (Banda Romana), a Santa Cruz, a Philorfênica (de Sant’anna Gomes também) e a Euterpe Infantil.

Bisavó
MINHA BISAVÓ ALZIRA Gomes, (nome de solteira) e
depois, Alzira Gomes Monteiro, (filha de Sant'Anna
Gomes), meus 3 filhos e eu
.

Ainda ativo em 1867, Maneco realiza trabalhos para a Câmara, mas um novo nome começa a tomar o lugar do velho músico: José Pedro de Sant’anna Gomes, o abnegado Juca, que a esta época já regia a abanda que levava seu nome e a Philorfênica, fundada em 1863.
Era o mestre-ensaiador, Juca Músico, como lhe chamavam todos.

Sant’anna ainda regeu a Orquestra do Teatro São Carlos e trabalhou na Igreja, em substituição ao pai. A atividade musical também se transformara.
A inauguração da Matriz Nova se deu em 8 de Dezembro de 1883.

Foi apresentada a obra de Sant’Anna Gomes, “Ave Maris Stela, para mezzo-soprano, viola d’amore, executada pelo próprio Sant’anna à viola e orquestra.
No sepultamento de Maneco, os acordes lamentosos da banda, emolduravam o fim de uma época. Seu sucessor, ao seguir o cortejo fúnebre, já era o retrato do novo músico: apesar de ainda estar ligado à Igreja, seu lugar era o Teatro São Carlos, os salões e as agremiações artísticas, que surgiam cheias de vigor.

O grande herdeiro musical de Maneco foi José Pedro, que inclusive recebe o mesmo apelido do pai. Teve larga atuação como professor, foi exímio violonista e compositor inspirado, tendo executado também viola d’amore. Juca teve um coração amigo por excelência, ao qual Tonico recorreria até morrer, dele recebendo, pela força da ascendência, os conselhos do bom senso.

Foi regente da Orquestra do Teatro São Carlos, dirigiu as bandas Sant’Anna Gomes e a Philorfênica, formada por moços do comércio, entre outras.

 

Fundou dois estabelecimentos para comércio de músicas e instrumentos musicais, a “Harpeolina Musical” e a “Sant’Anna Gomes Oficina de Pianos”.
Sant’Anna obteve algum sucesso financeiro, quando dirigiu, juntamente com Miguel Diez, uma companhia de zarzuelas, gênero muito em voga naquela época.: contratava os artistas, em geral espanhóis, e oferecia-lhes infra-estrutura para os espetáculos, desde a orquestra até a decoração.
Apesar do sucesso deste empreendimento e de outras atividades suas, Sant’Anna nunca conseguia manter reservas, pois, durante toda a vida, enviou dinheiro para Tonico, sempre em dificuldades financeiras.

Sant’Anna era um músico refinado e discreto, que também produziu uma obra de qualidade e já era habituado às platéias e às exigências de um mercado musical em formação. Sua obra é mais profana e camerística, com ênfase em quartetos e quintetos para cordas.
Nessa ocasião, passou pelo golpe de perder o filho mais velho, Paulino, que faleceu aos dezoito anos na Itália, vitimado pela tuberculose, no qual depositava as suas melhores esperanças.

Avó
MINHA AVÓ NAIR, cujo nome de solteira era
Nair Gomes Monteiro, minha filha Érika e eu.

Paulino morava em Milão, com o tio Carlos, onde estudava violoncelo e matemática. Todavia, um dos seus filhos, Alfredo, destacou-se na música, concluiu com brilhantismo um curso de violoncelo na Universidade de Bruxelas e tornou-se um dos grandes executantes desse instrumento no Brasil. Foi professor do Conservatório Brasileiro de Música.

De seu casamento, teve cinco filhos e vários de seus descendentes seguiram a sua arte, alguns atingindo renome internacional no século XX.
Alice, pianista e professora, teve um casamento infeliz com Rodolfo Grosso, que passou longe de ser um bom marido, e seus filhos continuaram a tradição iniciada pelo avô: Iberê Gomes Grosso, violoncelista, Ilara Gomes Borghert, violonista, Alfredo Gomes e ainda Alzira Gomes Monteiro (bisavó desta autora)  e Arlindo Gomes, que também foram ligados à música, como excelentes amadores. 

Sant’anna Gomes faleceu em Campinas no dia 19 de Abril de 1908, quando seu filho Alfredo ainda estava na Europa, cursando a referida Universidade.
Faleceu vitimado por pneumonia dupla, em condições modestas.
Sua única propriedade então, era uma chácara no bairro do Lyceo (Guanabara), no valo de 2:ooo.ooo réis. Como os herdeiros não puderam pagar as dívidas, a propriedade à Rua Monjolinho, 2, com fundos para a Av. Alberto Sarmento. Cada um dos filhos recebeu 146.600 réis.

Em 1893, Juca havia adquirido um terreno à Rua Antonio Cesarino, onde fez erguer uma casa, cujo frontispício era todo decorado com motivos musicais do qual, teve que se desfazer em Abril de 1906.

 

Possuía, como o irmão Tonico, o grave defeito da excessiva bondade e modéstia: uma vez, quando Juca exercia as funções de juiz de paz, libertou um gatuno que havia furtado comida e ainda lhe deu mantimentos, o que custou-lhe o cargo, por ter sido exageradamente indulgente.
Nos dias de festa, nas cavalhadas anuais, nas procissões, nas retretas dominicais e festas, era comum encontrá-los; CG  nos ferrinhos e Juca na clarineta.
Durante anos de intensos estudos, Santana Gomes, além de adquirir um formidável arsenal técnico, reuniu profundos e dilatados conhecimentos que lhe facultaram assumir, na vida musical campineira, uma das posições mais eminentes que um músico pode desfrutar. Além da clarineta, dedicou-se também ao violino, pois, propunha uma mensagem sonora que trouxesse beleza e nobreza a todos aqueles que amassem a verdadeira música.
Com a morte do pai, em 1868, Santana passa a dirigir orquestras e bandas como a Philofêrnica, formada por moços do comércio, a do Teatro São Carlos e a que levava o seu nome.

Mãe
MINHA MÃE, WANDA (bisneta de Sant'Anna Gomes),
minha filha e eu (à partir dela, o sobrenome GOMES
já não aparece)

Apresentou-se como primeiro violino em diversos concertos no Clube Haydn de São Paulo.
Santana compôs músicas dramáticas, de câmara, instrumental, vocal, polcas, valsas, mazurcas e outras. Todas de inspiração delicada. Não foram as operísticas italianas e alemãs os seus modelos, mas os mestres da música de câmara, principalmente Mozart, em quem se inspirou.
De sua lavra saíram belas composições como a ópera Alda, em quatro atos, que chegou a ser enviada à Itália por CG. O libreto, escrito por Emilio Ducati em italiano e traduzido por Benedito Octávio, foi apresentado na íntegra por Álvaro Miller em 1906, numa sessão literária realizada nas dependências do Centro de Ciências, Letras e Artes, cuja fundação em 1901, teve em Santana Gomes um de seus idealizadores. Nesse local criou o Departamento de Artes e promoveu as primeiras representações de música clássica.
(...) Deixou ainda uma ópera chamada Semira, infelizmente inacabada, com somente dois atos.

Não podemos esquecer outras composições, como Frederiquinho, valsa para piano; Lamento das Órfãs, encenada por ocasião da inauguração do Asilo de Órfãs da Santa Casa de Misericórdia; um quinteto Saudade (1882), dedicado ao irmão, uma valsa; e um quarteto para cordas, dedicado a D. Pedro II, em agradecimento dispensado pelo imperador a Carlos Gomes, durante a sua estada na Europa por anos seguidos.

Conforme consta na partitura, Saudade é dedicada a CG. Feita para quinteto de cordas, a composição nasceu da seguinte forma: “Tive uma tarde tão funda saudade do Tonico que, recolhido em meu escritório compus Saudade e lhe dediquei”, disse o próprio maestro aos amigos íntimos.

 

Santana participou da campanha abolicionista com as composições O Filho da lavadeira, com letra de Francisco Quirino dos Santos.
Por ocasião da inauguração da Matriz Nova (Catedral) em 1883, Santana compôs a música Ave Maria Stela.

Outro fato marcante foi a composição do prelúdio da Pastoral, cujo texto foi escrito por Coelho Neto, na época, professor do Culto à Ciência, em 1903.
Além de músico, Santana teve outras atividades: foi Juiz de Paz, presidente da Junta Militar e Vereador. Chegou a ter dois estabelecimentos comerciais, a Harpeolina Musical e a Santa Gomes Oficina de Pianos, para venda de partituras e instrumentos musicais. Numa atitude pioneira, custeou a instalação dos dois primeiros lampiões de querosene instalados na cidade, na Rua das Campinas Velhas (atual Moraes Sales).

Casado com d. Deolinda, teve cinco filhos.
O jurista Pelágio Lobo, que o conheceu, assevera que Santana era modesto, doce criatura que primava pela humildade.
Ao falecer a 4 de Abril de 1908, vítima de pneumonia dupla, vivia em condições modestas.
Seu corpo está sepultado no Cemitério da Saudade, em terreno da Ordem Terceira do Carmo.